sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O LULISMO E O PETISMO





* Cláudio André de Souza

Ficamos à deriva em boa parte da grande imprensa de análises mais acuradas sobre política, que revelassem tendências que levem em consideração a cultura política, os interesses, as instituições, etc. Não que devamos esperar da mídia nativa e seus conglomerados uma pesquisa acadêmica, mas o mínimo de bom senso na análise dos atores políticos. Por que falamos disso?
Perdemos praticamente todo o ano de 2010 a acompanhar um debate superficial e sem dimensão real (de análise) do papel do PT e de Lula no processo eleitoral e do resultado nascido das urnas. Daí deriva algumas inconsistências de esboço que às vezes tem o aval de cientistas políticos e sociólogos acurados na prática “futurológica”.
A debater a situação política atual podemos tecer que: 1) O PT consolidou a sua guinada a estabelecer uma parceria estável ao lado de partidos de centro e direita. Isso não significa que tornou-se mais um destes "in natura", mas, inversamente, temos a assunção de um conflito programático em aberto no PT, uma vez que assumiu no governo Dilma pastas ligadas aos movimentos sociais e setores da sociedade civil, o que tornará a ação do PT no futuro governo um “teste à esquerda”, acerca do seu potencial em defender valores e interesses que circundam o partido desde a sua fundação no Colégio Sion, em 1980. 2) O PT traduz os impasses e desafios de uma esquerda pós-Berlim (na América latina, a chegada da esquerda aos governos centrais guardam uma similaridade de trajetória e agenda) que tendeu a concentrar as suas estratégias no êxito eleitoral (conquista de governos e cadeiras no parlamento) em peso semelhante a atenção de se fazer presentes em movimentos sociais, sindicatos, ONGs, associações, etc. É o PT, vide o resultado destas eleições que comprovam uma parcela razoável de candidatos eleitos com apoios dos grupos acima mencionados, a concertar uma representação política qua ainda expressa atores políticos organizados para além de um mandato concentrado na ação e voz dos parlamentares; 3) Devemos fomentar e ater a nossa atenção a uma questão: como irá ficar o debate interno do PT entre o real, desejável e necessário? Ou seja, tendo o partido uma série de “pontas” em sua estrela, digo as tendências e facções internas, como formatar-se-á o debate acerca de balanço do governo Lula e o que fazer e esperar no cenário do novo governo da presidente Dilma? Em outras palavras, como tende a ficar a energia interna do partido em não se acomodar sob os auspícios de um governo que não reflete as posições majoritárias do PT e de encarnar a lógica viciada no sistema partidário de ser governo como um fim último? 4) Pelas declarações proferidas até aqui, Lula estará longe de interpretar a figura de um “ex-presidente”, lugar do qual alguns tendem a pensar que o “tempo político” já passara. Há uma tendência da sua figura a partir de agora: a de se tornar um presidente não-eleito do PT, retomando a militância partidária, servindo de articulador e apoiador de candidaturas para as eleições de 2012. Decerto, tende a embarcar pelo Brasil, provando de um apoio e popularidade que poderá, em parte, estar imune a outrora cadeira que esteve nos últimos anos. O fortalecimento da sua figura em 2012 pode abrir flanco para um terceiro mandato, a depender da performance do governo Dilma, dentre outras questões; 5) Por último, o dilema político a que o PT encarna na atualidade foi problematizado há 21 anos pelo Jurista e Sociólogo Raymundo Faoro em entrevista a Mino Carta: se o PT entender que o tempo não é crucial, vai se beneficiar muito com isso. O tipo de proposta do PT não é a Presidência da República. O importante são os meios para, na Presidência da República promover aquelas reformas a que ele se propõe. Só a Presidência da República, desligada do programa, poderia até ser uma armadilha para o PT”. Ou seja, a proposta original do PT coincidia com o intuito de mudar uma cultura política perpassada por valores e práticas políticas, para, daí, alçar vôos que dessem qualidade a sua ação política. O maior desafio para o partido nos dias atuais é interpretar esta poderosa insígnia teórico-analítica. 
Em outras palavras, cabe ao partido ao chegar a dezenas de cadeiras parlamentares e governos executivos (re) pensar em que medida pode e deseja se reencontrar com as bandeiras, interesses e desejos comuns desde a sua fundação. Assim como a esquerda da América Latina, para o PT tais questões residem em um livro aberto.

* Professor e mestrando em ciências sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E-mail: claudioandre.cp@gmail.com        

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